Cebolinha

Uma das lembranças mais frequentes de minha infância era de ter o gibi número 100 do Cebolinha. Tínhamos três em casa, um meu e os outros das minhas irmãs; o porquê de meu pai ter comprado o mesmo gibi pra nós três, um exemplar pra cada, é algo que eu já desisti de entender. Mas, confesso, já pensei bastante no assunto…

Na primeira historinha do gibi o Cascão e o Cebolinha estão relembrando acontecimentos dos gibis anteriores. Em um dado momento eles começam a discutir (não lembro o porquê) e o Cascão diz que “quem nasceu pra cebolinha nunca chega a alfacinha”.

Durante muito tempo discordei dessa frase, principalmente porque eu acreditava que ser bem sucedido está ao alcance de qualquer um. Há inúmeros exemplos de pessoas que tiveram uma origem simples, se esforçaram e se tornaram “alguém na vida”. E eu ainda acredito, e essa também é minha luta diária — ou pelo menos é minha luta nos dias em que acordo sem preguiça e sem o sentimento de que a humanidade é podre…

Só que eu voltei a pensar nessa frase e percebi que ela pode ser interpretada de outra forma: a pessoa pode atingir seus objetivos de vida, pode estudar numa faculdade renomada, pode ir morar num bairro bacana e mudar o corte de cabelo, aprender a apreciar um bom vinho e a usar, corretamente, os talheres pra comer lagosta, mas a essência da pessoa continua igual. O que a pessoa foi um dia sempre a perseguirá, por mais que ela tente fugir daquilo; se ela traiu ou ofendeu alguém no passado, por mais que ela tenha se tornado uma pessoa melhor ela ainda vai guardar alguns resquícios daquilo — ainda que eles venham à tona somente tarde da noite, enquanto a pessoa está prestes a dormir. Principalmente se, logo depois da ofensa, a pessoa teve que conviver com o sentimento de culpa por um tempo.

“Nunca chegar a alfacinha” não está relacionado à conquista de bens materiais ou status, e sim ao legado, ao que a pessoa traz consigo. O jogador de futebol Adriano, dizem, declarou uma vez que “você pode sair da favela mas a favela nunca sai de você”. A pessoa pode até pensar que virou alfacinha só porque sua vida mudou mas, lá no fundo, ela é a mesma cebolinha de sempre.

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