Playground

Estou ouvindo a criançada brincando no playground do prédio enquanto lavo louça. Ainda não botei os pés (nem a cabeça, nem qualquer outra parte do corpo) pra fora de casa, mas pela água fria que sai da torneira dá pra saber que está frio. Até porque hoje é, oficialmente, o primeiro dia de inverno.

E a criançada grita lá fora. E eu começo a lembrar de quando eu era criança e de como era difícil de me fazer mudar de ideia sobre certas coisas — por exemplo, brincar fora de casa num dia frio. Eu queria andar de bicicleta apesar da garoa fina e dos 12º de temperatura, mas minha mãe me dizia que eu podia até pegar uma pneumonia! Eu contra-argumentava, dizendo que era só botar uma blusa a mais, e que o próprio exercício de pedalar a bicicleta me manteria quente. No último dos casos eu esperava algum amiguinho passar em frente de casa com sua bicicleta pra disparar o argumento final (que, vale mencionar, raramente funcionava): “olha lá, tem um monte de criança andando de bicicleta, por que eu não posso?”

Quando somos crianças temos menos medo de fazer certas coisas. Encontramos mais pretextos pra fazer do que justificativas pra não fazer. Parece que, conforme crescemos, por algum motivo misterioso, a coisa se inverte. Deixamos de fazer aquilo de que gostamos porque está frio, porque não é o momento certo, porque precisamos de mais dinheiro… em partes porque perdemos a capacidade de imaginar e passamos a dar mais ouvidos à razão mas, principalmente, porque inventar desculpas é muito mais cômodo; o esforço de fazer é muito maior do que o de ficar parado!

Talvez, em algum momento, herdemos esse comportamento de nossos pais. Eles mesmos, numa tentativa de ter o mínimo de trabalho possível, contam histórias pra nos impedir de fazer algo arriscado. Ninguém quer ter que correr com o filho pro hospital no meio da noite porque ele quebrou um braço ou não para de tossir. E assim vamos adquirindo essa covardia que nos protege contra a vida, para o bem e para o mal.

Continuo ouvindo as crianças no playground. Parece que mais crianças se juntaram à brincadeira; ouço gritos e risadas que não estavam ali antes. Talvez seja uma boa hora pra fechar a torneira, pegar um casaco e enfrentar o frio lá fora…

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