Nojinhos

Eu era uma criança cheia de nojinhos e medinhos. Não gostava de alface, cenoura, cebola, alho, creme de leite…

(E não comia nada que tivesse molho branco com a desculpa de que eu era alérgico a creme de leite, que ficava com dor de cabeça toda vez que comia. Até que um dia minha mãe me falou de alguma coisa que eu gostava bastante e que tinha creme de leite, e aí meu argumento da alergia foi quebrado pra sempre. Enfim…)

Não podia nem pensar que um dia eu vou morrer que já me dava uma coisa ruim. Pensava mil vezes antes de experimentar alguma comida diferente, tipo carne de rã. Tinha medo do escuro e dormia sempre com a porta entreaberta pra deixar a luz do corredor entrar. Não conseguia ficar à vontade na água (na verdade ainda não consigo).

Esses medos todos me fizeram viver num “cercadinho”, limitaram meu mundo a uma realidade bem pequena. O mesmo comportamento que eu tinha com a comida (gostar de uma variedade pequena de pratos) era replicado ao estilo musical, às roupas, à política.  Gostava de rock e apenas rock, preferencialmente as músicas mais “pesadas”. Acreditava no PT e tendia à esquerda, pois repetia o comportamento de meu pai nesse quesito. Evitava comprar certas cores de roupa pois achava que não caíam bem em mim, e evitava as estampas.

Com o tempo fui percebendo como fui bobo em me limitar dessa forma. Uma das coisas que eu digo e repito à exaustão neste blog é que perdi várias oportunidades na vida, muitas delas por causa desses limites. Alguns deles até vieram dos meus pais.

Por exemplo, quando eu estava me preparando pra prestar vestibular e mencionei que gostaria de prestar Letras ou Artes Plásticas meu pai usou argumentos absurdos pra me dissuadir dessa ideia; pra Letras, ele me disse que eu passaria o resto da vida fazendo greve (detalhe: durante 3 anos trabalhei como professor de Inglês e durante o período consegui, inclusive, começar a comprar meu primeiro apartamento — ou seja, não sei de onde ele tirou essa ideia de que eu passaria fome sendo professor!). Sobre o curso de Artes Plásticas, ele me disse que todos os meus amigos na faculdade seriam gays. Aí eu vou pra faculdade de Publicidade e faço amizade com um monte de gays. Começo a trabalhar com web design e conheço mais um monte de gays. E ainda estou vivo!

Bom, isso foi só pra mostrar que em vários momentos da minha vida meus pais, talvez sem querer, acabaram me “podando” de alguma forma. Eu poderia culpá-los por isso (na verdade eu até culpei em algum momento da minha vida) mas o culpado maior fui eu mesmo. Eu acabava me acomodando com o que eu ouvia, escolhia o caminho mais fácil pra fazer as coisas. E, como sabemos, o caminho mais fácil geralmente te ensina muito menos.

Pior que isso: o caminho mais fácil te dá uma visão parcial de como as coisas funcionam. E uma visão parcial te enche de preconceitos. E ter preconceitos hoje em dia, num mundo em que as pessoas são, de certa forma, forçadas a interagir com um número cada vez maior de pessoas, é no mínimo burrice.

• – • – •

A humanidade já é bem velha. O homo sapiens, reza a lenda, surgiu há milhões de anos. Jesus, reza outra lenda, passou pela terra há mais de dois mil anos e deixou sua mensagem de amor ao próximo — que nem todo mundo seguiu, como podemos notar. A ciência e a tecnologia evoluíram de forma que, hoje em dia, o ser humano pode viver de maneira muito mais confortável que seus antepassados, e livre de uma série de doenças que afligiam as pessoas há cem, duzentos anos.

Mas o ser humano não aprendeu a deixar de ser babaca.

A galera de hoje em dia já vem munida de uma capacidade de realizar várias tarefas ao mesmo tempo. Com essa capacidade, ao que parece, veio a arrogância, a prepotência de achar que o fato de papai e mamãe deixarem o(a) filhinho(a) sair de casa e ficar na rua até o amanhecer lhes dá o direito de opinar — e ter um ponto de vista inflexível — sobre qualquer assunto.

Os jovens mal começaram a viver e já acham que a faculdade é o mundo inteiro. Amiguinhos, o mundo é muito maior que a sua faculdade. Absurdamente maior. E o que a gente ouve por aí não nos dá 1% da visão do que a vida realmente é.

Fora os pré-conceitos sobre as coisas. “Ah, eu não vou em balada GLS porque não gosto das pessoas que vão”; “ah, esse lugar é chato porque só tem gente metida a artista”; “ah, gente que defende o aborto só está pensando em uma forma fácil de corrigir os próprios erros”… e a pessoa se apega a esses conceitos e não percebe que sua mente se fecha pra infinitas possibilidades! Sua vida, seu mundo se resume a dois ou três quarteirões do bairro onde ela mora.

Eu convivi com pessoas que tinham (e devem ter ainda) essa tendência a viver num cercadinho. “Não gosto de gente que vota no PT, por mim todos os petistas estariam mortos”. “Palmeirense/São-paulino/Corinthiano é tudo burro”. “Deus me livre de ter um filho gay! Encho de porrada até falar grosso”. No começo até que era engraçado (?) ver a galera falando assim, mas aí uma hora acabei percebendo que, na maior parte do tempo, eles só reclamavam. Passavam o tempo todo com seus nojinhos de gente assim ou assada. E aí eu percebi que não estava ganhando nada ao manter a amizade com essas pessoas — ao contrário, só estava perdendo. E muito!

• – • – •

Hoje em dia procuro experimentar as coisas antes de ter uma opinião sobre elas. Procuro conhecer as pessoas antes de dizer se simpatizo com elas ou não. E procuro manter a cabeça aberta a novas possibilidades. Faço o possível pra não me privar de novas experiências, pra não criar esses cercadinhos.

Aliás, tem um cercadinho que faço questão de manter: aquele que me mantém longe de gente imbecil.

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5 Comentários em “Nojinhos”

  1. Isabel Says:

    Tbm fui podada e acabava me podando por comodidade. Tbm culpei meus pais, e depois a mim mesma, por isso.

    • autoajudasentimental Says:

      O problema é qdo a gente se dá conta disso e começa a pensar q perdeu muito tempo. Mas o importante é perceber e, principalmente, mudar de rumo!🙂


  2. pô Zé, tu era fresco hein ahahahah :p e nem li tudo ainda…

    • autoajudasentimental Says:

      Pior q eu era! hahahahah mas o engraçado é q eu gostava de umas coisas q poucas crianças curtem, tipo repolho e batata doce. Mas até meus 7 anos eu não gostava de NESCAU! Dá pra entender? hauhauahuah


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