Rancor

Hoje encontrei um ex-chefe meu. Eu sabia que um dia isso poderia acontecer, já que moro perto de onde ele trabalha. Foi meu primeiro emprego “de carteira assinada”, e foi o primeiro lugar onde trabalhei por mais de dois anos (na verdade foram três anos e alguns meses). Até que um dia fui mandado embora por ter me recusado a fazer algo que não estava na minha lista de atribuições.

Na verdade é aquela história da gota d’água, sabe? Eu me sentia um tanto explorado naquele lugar. Foi onde eu aprendi o significado de “assédio moral”. Eu já estava cansado de não ter férias — no ano em que fui mandado embora não tinha tirado nem mesmo as coletivas, pois tínhamos que terminar um catálogo impresso que atrasou. E, ainda assim, julgaram-se no direito de me dispensar sem justa causa, porém sem procurar compreender toda a situação — e sem valorizar meu trabalho e empenho durante mais de três anos.

Enfim… foi engraçado reencontrá-lo. Houve um momento em que eu tive a impressão de que ele havia me reconhecido; ele me encarou com aquela expressão de “te conheço de algum lugar”. Mas não disse nada, e eu achei melhor não dizer também. Até porque algo  queimava dentro de mim naquele momento, um misto de regozijo por ter sido “descoberto” e ódio por lembrar da forma como meu desligamento aconteceu. Tive que me segurar um pouco pra não ir puxar assunto, pois eu faria questão de dizer que estou muito bem atualmente, muito melhor do que estaria se tivesse continuado trabalhando lá.

Meu mundo se expandiu monstruosamente depois que saí daquela empresa. Demorou um pouco mas consegui realizar um sonho que eu tinha, o de trabalhar em uma empresa multinacional. Se eu não tivesse levado esse “tombo”, dificilmente estaria onde estou hoje. Eu deveria ser grato por isso (e, de certa forma, acredito que sou), mas ainda tenho uma certa “birra” com todos os que foram de alguma forma responsáveis pela minha demissão, mesmo depois de 10 anos.

Aí me dei conta de algo que eu já sabia (ou deveria saber): eu guardo rancor. Muito rancor.

• – • – •

Sei que isso é algo que eu preciso trabalhar: tenho que aprender a perdoar as pessoas, relevar uma série de coisas… mas ainda não consigo, principalmente quando o rancor se origina da falta de reconhecimento dos meus esforços: as pessoas por quem guardo ressentimento, de alguma forma, não souberam considerar as minhas tentativas de fazer tudo dar certo, não quiseram ver como eu estava me desdobrando pra fazer acontecer. E isso é algo que eu ainda não aprendi a perdoar.

• – • – •

Aí, inevitavelmente, lembro da minha ex. Um tempo atrás eu acabei caindo sem querer (foi sem querer mesmo, eu juro!) no perfil dela no Facebook; eu estava navegando pelo celular, então vi apenas a foto do perfil dela, num tamanho ridiculamente pequeno — porém grande o bastante para eu perceber que havia outra pessoa (um homem) na foto junto com ela. Ver aquilo já me desagradou, pois comecei a pensar que ela deve estar feliz depois de tudo o que ela fez contra mim — mesmo sabendo que ela tem total direito de buscar sua felicidade, assim como eu tenho.

Ainda assim acho que ainda não consegui perdoá-la totalmente, mesmo compreendendo muito bem seus motivos. Talvez por ter aquele sentimento de que eu não merecia ser traído depois de tudo o que fiz por ela, por nós. Depois de ter me privado de fazer uma série de coisas por causa dela. Depois de todos os sacrifícios que fiz pra poder garantir o mínimo de conforto para nós dois.

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Ainda assim acho que fiz bastante progresso. Já não penso nela com tanta frequência. Estou muito feliz com minha namorada, e vejo que a separação foi algo positivo na minha vida, pois me deu a oportunidade de encontrar uma pessoa que sabe me valorizar e me amar verdadeiramente — e que me dá motivos para valorizá-la e amá-la também.

Talvez seja apenas uma questão de tempo pra eu esquecer até mesmo desse ressentimento que eu ainda tenho. Quem sabe?

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