Redenção

Passei boa parte da minha infância morando em sobrados. Volta e meia eu inventava brincadeiras que envolviam a escada de casa. Uma vez, aos três anos, inventei de descer feito cachorro, com os pés e mãos apoiados no chão. Não me lembro exatamente como aconteceu mas, era de se esperar, rolei escada abaixo e parei numa curvinha que existia bem no meio da escada. Lembro-me claramente de descer a escada rolando, parar sentado em um dos degraus e olhar, com toda a calma do mundo, pra minha mãe, que gritava desesperada no andar de cima.

Hoje eu me divirto contando essa história. Intrigantemente, não me lembro de qualquer trauma associado a essa experiência. Dizem que, geralmente, guardamos com detalhes as experiências traumáticas, como uma espécie de mecanismo de autodefesa: elas vão estar lá na memória, prontas pra serem acionadas quando quisermos fazer algo errado novamente.

Então, se a experiência não foi traumática, por que eu me lembro de tudo com detalhes, ainda mais considerando que isso aconteceu há mais de 30 anos?

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Eu ainda me lembro da minha ex, sim. Mas agora penso nela de um jeito totalmente diferente. E não acredito, como até mesmo alguns psicólogos poderiam afirmar, que ainda há algo mal resolvido entre mim e ela; ao contrário, penso que nossa história já faz parte do passado, e todas as lições já foram aprendidas. O que sobrou foi apenas a história; nenhum sentimento, nenhuma pendência. É algo de que vou me lembrar, em alguns momentos, assim como me lembro de várias histórias da minha vida. Assim como me lembro do dia em que rolei da escada.

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Hoje lembrei dela mais uma vez. Eu preciso me redimir. Não vou pedir perdão pois não acredito que isso seja algo que se pede; cabe a ela perdoar ou não.

Durante pouco mais de 2 anos eu senti raiva dela e do cara por quem ela me trocou. Ofendi os dois, julguei sem procurar entender o ponto de vista deles. Eu e minha ex ficamos juntos por tanto tempo por algum milagre; não tínhamos nada a ver. Ela foi a primeira a perceber — e a ter coragem e iniciativa pra tomar uma atitude.

Tenho presenciado muitas pessoas que descobrem, depois de alguns anos juntos, que há outras pessoas no mundo que “casam” melhor com elas. É algo que acontece. O orgulho ferido por ter sido traído e abandonado é natural, assim como é natural que alguém chegue à conclusão de que está com o parceiro errado. Ninguém é obrigado a ficar com alguém se não estiver mais afim. E hoje entendo isso. E me redimo, na frente de tudo e de todos.

E digo à minha ex que ela estava certa. Não apenas por ter tomado a decisão, mas principalmente por isso.

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