O Dia D

Desci no metrô Consolação cedo demais. Achei melhor checar se haveria a possibilidade de ela estar sozinha. Mandei um SMS pra minha prima, a advogada responsável pelo processo do divórcio, perguntando se ela já havia chegado ao cartório, na rua Augusta. Não recebi resposta; achei melhor esperar mais um pouco e tentar novamente dentro de 5, 10 minutos. Não queria ficar lá com minha ex, sem assunto. Acho que seria desagradável demais.

Fiquei passeando na galeria do Conjunto Nacional, dando uma olhada nas vitrines da Livraria Cultura. Quase decorei a disposição dos livros, de tanto ficar olhando. Só não consegui memorizar realmente por estar um pouco nervoso. Eu tenho essa coisa meio besta de ficar imaginando como algo vai acontecer, em vez de simplesmente deixar rolar. Geralmente crio filmes na minha cabeça com a carga dramática de uma novela mexicana; no fim das contas o que acontece na realidade é bem menos bizarro do que imagino. Ainda bem!

Chego ao cartório. Vejo minha prima e minha ex. Elas se levantam enquanto me aproximo. Minha ex abre um sorriso de satisfação ao me ver; mas não parecia satisfação por estarmos prestes a por um fim na nossa história, e sim aquele tipo de satisfação quando você está morrendo de fome e avista um McDonald’s. Cumprimentei as duas; a ex, com toda a frieza possível, como se estivesse sendo apresentado a uma desconhecida. Vejo uma leve nuance de frustração invadindo seu rosto, tomando o lugar do semblante feliz aos poucos.

Subimos até o andar superior, onde nos encontraríamos com o escrivão, um velho conhecido da minha prima. Ela explica o porquê de termos adiado a assinatura do divórcio, que deveria ter sido na sexta-feira anterior; ela precisou ir a um enterro no interior. História tensa: a prima do namorado dela foi morta pelo ex-marido, que não se conformava com a separação. Ela já tinha contado essa história pra mim por telefone, na quinta-feira — e tudo o que eu pensei na hora foi como algumas pessoas tem sorte e não percebem…

(Na verdade talvez nem seja apenas sorte. Algumas pessoas sabem muito bem com quem estão lidando, e por isso fazem o que querem às escondidas — pra chegar um belo dia com toda a frieza do mundo e dizer que querem dar um tempo, que já planejaram inclusive onde vão morar e estão indo pra lá dentro de três dias…)

Enfim, de volta ao cartório. Minha prima contou novamente toda a história. Aproveitei pra dar o primeiro cutucão de muitos que eu ainda daria naquela manhã:

– Esse cara que matou a menina é burro. Não consegue ver que há um mundo de oportunidades lá fora, que há milhares, milhões de mulheres solteiras no mundo. Mas não, ele acredita que só ela poderia tê-lo feito feliz.

(Na hora eu nem pensei nas mulheres casadas com quem ele poderia vir a se relacionar — afinal de contas se ele não tiver a decência de respeitar o casamento alheio, como o então namorado da minha ex, ainda há esse amplo mercado a ser explorado.)

Enquanto o escrivão revisava o documento que assinaríamos minha prima (até hoje não sei se foi proposital pra mostrar à minha ex como eu estava bem ou se foi só pra manter assunto mesmo) perguntou como estava minha vida, o que eu estava fazendo de bom. Percebi quanta coisa eu conquistei dentro de quase 2 anos desde que nos separamos. Eu falava e percebia no rosto da minha ex um misto de frustração e tristeza; frustração, talvez por perceber como ela atrasou minha vida (e como eu consegui ficar bem depois do pé na bunda), e tristeza talvez por não ter realizado tantas coisas, por não ter presenciado tudo de bom que me aconteceu.

Enquanto revisávamos e assinávamos o documento começamos a conversar sobre a nova lei do divórcio, recém aprovada. Coloquei minha opinião sobre a lei o que valeu como mais um cutucão: disse que se com a lei anterior já era relativamente fácil abrir mão do compromisso que havia sido selado, imagine agora com o encurtamento dos prazos e a remoção de boa parte da burocracia.

Antes de nos despedirmos do escrivão, fiz alguma piadinha sobre toda a situação, o que fez o escrivão rir — e valeu como outro cutucão na minha ex. Não me lembro da piadinha, infelizmente, mas foi bem espirituosa.

Com tudo resolvido chegou a hora da despedida. Minha vontade era de dizer um “até nunca mais” pra minha ex mas me limitei a dizer “tchau” como se despede daquele tio desagradável que você vê uma vez por ano no aniversário de alguém. Fui tomar um café com minha prima pra comemorar.

• – • – •

Nem sei por que comecei a escrever sobre isso seis meses depois de termos finalizado o processo de divórcio. Simplesmente tive vontade e comecei a escrever.

Explore posts in the same categories: Uncategorized

2 Comentários em “O Dia D”

  1. Cintia Says:

    Achei estranho você resolver dividir isso apenas 6 meses depois, mas ao mesmo tempo, entendo. Faz parte do tempo que cada um de nós, precisamos. Tenho a impressão que a verdadeira ‘motivação’ de existência desse blog acabou de morrer. Mas espero que você continue a escrever mesmo assim (isso se minha impressão se confirmar), ok? Um beijo.

    • autoajudasentimental Says:

      Acho que o grande problema é que eu tenho esses flashbacks, sabe? hahahahah
      Esse foi um flashback que eu decidi colocar no papel — ou melhor, na tela. E sim, a principal motivação desse blog já morreu há um tempo mas eu tenho outras motivações pra mantê-lo. Sempre haverá algum flashback que eu terei vontade de compartilhar — na verdade até consigo pensar em alguns mas ainda não tive inspiração pra escrever. E ainda tenho essa motivação de escrever sobre as minhas aventuras e desventuras… hahahha
      Beijo!


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: