A hora de parar

Imagine-se submerso em uma piscina, com os pulmões cheios de ar. Chega uma hora em que você não aguenta ficar embaixo d’água, e emergir pra respirar é algo inevitável — instintivo, até. Se você não sai da água naquele exato segundo há uma grande chance de você morrer afogado (e, consciente ou inconscientemente, você vai lutar contra sua própria morte, claro!).

Se todas as coisas que podem acabar com nossa vida nos levassem a um ato simples como sair de uma piscina certamente não teríamos tantas pessoas com problemas emocionais por aí, não é verdade? Mas infelizmente as coisas não são tão simples assim, ainda mais quando há alguma forma de dependência relacionada.

Podemos viver muito bem longe da água, o que reduz consideravelmente as chances de nos afogarmos. Mas a coisa complica quando estamos habituados a determinados sentimentos, quando dependemos da sensação de ter algo ou alguém conosco pra “preencher um vazio”. É difícil de perceber a hora de parar com aquilo que nos mata aos poucos e, ao mesmo tempo, proporciona algum prazer.

É por isso, por exemplo, que é tão difícil pra um fumante abrir mão do cigarro. Por isso é tão duro chegar à conclusão de que um relacionamento está trazendo mais prejuízo do que benefício: estar com alguém nos traz sensações boas que nos fazem relevar aquilo que irrita no outro. Ouvir a voz da pessoa, beijá-la ou sentir seu perfume pode nos levar a desconsiderar aquela ofensa grave que ela nos dirigiu. Uma noite de sexo é uma forma excelente de fazer as pazes depois daquela discussão feia. As sensações boas são formas que encontramos pra minimizar, ou até mesmo anular, as sensações ruins causadas por aquilo (ou aquele/a) de quem dependemos.

Como saber a hora de descartar aquilo que nos faz mal, ainda mais quando há sensações agradáveis associadas? É difícil de definir; cada pessoa tem seus próprios limites, e sempre temos a tendência a fazer uma última tentativa pra ver como as coisas podem ficar. Somos sempre confortados pelo pensamento de que “quando eu quiser eu paro”, apesar de sabermos que não é verdade.

Mas uma hora ou outra nós sempre nos livramos do que nos faz mal — seja descartando e aprendendo a lidar com a falta ou sucumbindo de vez ao vício, o que pode nos levar à morte. A primeira opção (abrir mão do vício) nos traz inúmeros benefícios a médio/longo prazo mas requer muita coragem a curto prazo, já que a abstinência é inevitável. Optar por sucumbir ao vício também requer coragem, principalmente por termos consciência de seus malefícios. O importante, no fim das contas, é tomar uma decisão e manter-se fiel a ela.

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Pouco mais de uma semana atrás eu fiz a coisa mais imbecil que eu poderia ter feito (ou pelo menos é o que eu estou achando agora): depois de ficar um dia inteiro com vontade de fumar cigarro de cravo (eu sempre gostei do cheiro dos Gudang Garam) comprei um maço. Pela primeira vez na minha vida acendi um cigarro — pior, fumei-o inteiro. Não senti nada de anormal ao terminar; na verdade tive uma leve tontura, mas não foi nada que me levasse a querer acender outro. O gosto de um cigarro é algo que eu já classifico como a segunda ou terceira coisa mais tenebrosa que eu já experimentei (a primeira, com certeza, é um remédio contra dor de garganta chamado Colubiazol, bastante comum antigamente).

Só que aí chegou o dia seguinte, um domingo… e até deu uma vontadezinha de fumar novamente. Mais que isso, bateu um certo inconformismo do tipo “não é possível que eu tenha fumado e não tenha sentido NADA”.

Acendi o segundo cigarro da minha vida. Fumei. Nada de novo.

Chegou a segunda feira. Passei o dia inteiro trabalhando, mas fiquei pensando se eu teria a oportunidade de fumar novamente. Não tive e, apesar dos calafrios e da agitação, não senti grande falta.

Na terça feira fiquei pensando o dia inteiro no que eu tinha feito. Ao chegar em casa surgiu a oportunidade de acender outro cigarro (o terceiro): ao terminar senti um gosto horrível na boca e fiquei me perguntando por que raios as pessoas se viciam em uma coisa tão ruim. Desde então não fumei mais.

Porém… ah, porém… na sexta feira comecei a sentir uma dor incômoda na garganta que não passa por nada neste mundo! Além disso estou um pouco mais ansioso que o normal e, ao mesmo tempo, estou sentindo uma fraqueza parecida com a que temos quando estamos gripados. Estou dormindo mal: vou pra cama 1h, 2h da manhã e acordo às 6h, 7h — apesar disso não tenho sono durante o dia.

Tenho a sensação de que se eu acender outro cigarro os sintomas vão passar já na primeira tragada; essa seria uma forma simples de resolver a situação a curto prazo (tudo indica que estou tendo uma crise de abstinência; apesar da minha experiência como fumante ter sido tão breve isso é possível), mas será que eu deveria optar pelas consequências que a dependência do cigarro pode trazer? Ou será que suportar a abstinência agora e me manter firme na decisão de nunca mais fumar seja o melhor caminho?

De qualquer forma essa experiência me fez respeitar ainda mais aqueles que fumam. Agora sei como é difícil abrir mão do cigarro!

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Engraçado que, em algum momento durante a minha “desintoxicação sentimental”, tive sintomas parecidos com os que estou tendo agora. Ou seja, posso dizer que eu fui dependente do meu casamento e, principalmente, da minha ex — ou melhor, das boas sensações que ela proporcionava. Depois de uma longa e dolorosa abstinência não sou mais dependente emocional.

Ou melhor, hoje posso dizer que tenho controle sobre meus sentimentos e sobre minha dependência emocional. Dizem que você nunca deixa de ser viciado; você apenas aprende a ter controle sobre si mesmo e a evitar as recaídas.

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