“Freakonomics” e a depressão

Estou terminando de ler (finalmente!) Freakonomics, de Stephen Dubner e Steven Levitt. Os autores submetem uma série de situações do cotidiano a uma análise baseada em princípios econômicos, visando fugir completamente do chamado senso comum. A tese mais polêmica defendida no livro é a de que a legalização do aborto nos EUA, há quase 40 anos, foi o fator que mais contribuiu pra redução drástica nos índices de criminalidade daquele país durante a década de 1990.

O interessante desse livro é que ele te deixa com vontade de contestar toda e qualquer teoria que lhe é apresentada. Você passa a duvidar de dados estatísticos, pois nem sempre eles são obtidos da forma correta. Por exemplo, já foi provado que a forma como os pais cuidam de uma criança pode influenciar seu futuro, mas será que é apenas o que os pais fazem que influencia o futuro de seus filhos? Ou será que é o que os pais são (sua escolaridade, seu nível socioeconômico) que faz a diferença?

Recomendo a leitura!

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Ontem eu estava lendo sobre depressão e síndrome de pânico. Um dado interessante que é mencionado em diversas pesquisas é de que a ocorrência desses dois distúrbios é pelo menos duas vezes maior em mulheres. Li em algum lugar que isso acontece devido ao excesso de responsabilidades que a mulher vem assumindo ao longo dos anos; a mulher precisa “fazer o papel” de mãe, de esposa, de profissional…

Mas aí é que está: afirmar que a mulher vem acumulando uma série de responsabilidades pode até parecer razoável, mas será que isso realmente acontece apenas com as mulheres? Vou começar a falar sobre a minha experiência de casado: eu lavava e passava minha própria roupa; eu lavava o banheiro e passava aspirador na sala e nos quartos do apartamento em que morávamos; eventualmente eu cozinhava; na maioria das vezes eu fazia compras. Ela tinha suas responsabilidades também, claro, mas não ficava sobrecarregada com as tarefas domésticas pois eu ajudava. Ou seja, se em algum momento ela recebesse o diagnóstico de depressão não seria razoável que eu também o recebesse?

Além disso, eu conheço vários casais cujos maridos assumiram responsabilidades que, na metade do século passado, eram exclusivamente femininas. Tem um primo meu que cozinha e ajuda a mulher a trocar as fraldas de seu filho recém nascido. Um amigo meu também cozinha — com mais frequência que a mulher dele.

Agora, um dado muito importante: é de conhecimento de todos que os homens tendem a ir ao médico com menos frequência do que as mulheres. Será que isso impediria uma análise mais precisa dos casos de depressão e síndrome de pânico? Haveria a possibilidade de a quantidade de mulheres deprimidas ser duas vezes maior que a de homens simplesmente porque apenas uma parcela pequena de homens procura tratamento, enquanto a maioria aguenta os sintomas em silêncio?

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Há casos de depressão na minha família. Na verdade há apenas dois casos que foram diagnosticados: uma tia da  minha mãe e um tio do meu pai. Entre os meus parentes, pelo menos, as estatísticas mostram que mulheres e homens sofrem de depressão na mesma proporção.

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Por que me interessei por isso de repente? Porque às vezes me preocupo com a possibilidade de estar deprimido. Isso explicaria muita coisa.

E por que citei a diferença entre a quantidade de homens e mulheres diagnosticados com a doença? Simplesmente por acreditar que homens e mulheres estão em pé de igualdade nisso também, apesar de os números mostrarem o contrário. Por acreditar que, muitas vezes, as pessoas subestimam o sofrimento do homem gerado por todos os tipos de pressão a que ele é submetido. E por pensar, assim como os autores de Freakonomics, que nem sempre o senso comum pode ser considerado uma verdade absoluta.

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2 Comentários em ““Freakonomics” e a depressão”

  1. Flávio Says:

    Ao ler seu post lembrei de algo que ouvi muito após a minha separação, juntamente com a palavra “carência”( que a meu ver é a maior baboseira que uma mulher pode dizer quando trai o homem), que é que o homem não pode demonstrar fraqueza, insegurança… Ao ler seu post lembrei disso pq você tem razão ao afirmar que os homens procuram menos os médicos para possíveis diagnósticos de doenças relacionadas à psique. Ou seja, se o homem estiver abalado psicologicamente(seja qual for o motivo) e procurar um médico, corre um sério risco de ser abandonado, traído, taxado de fraco, de “banana”, dentre outros adjetivos que as mulheres adoram dizer para diminuir os homens que um dia elas disseram amar, por isso o número é menor… Depois do que me aconteceu, para mim, isso ficou provado, pois realmente passei por alguns momentos em que me abalei psicologicamente e isso ficava estampado em minha cara, me deixava realmente fraco, e o que aconteceu? Fui traído e, literalmente, roubado, por minha ex-mulher… Abs

    • autoajudasentimental Says:

      Pois é, seu caso não é o único. Já ouvi diversas histórias parecidas.
      Engraçado que cabe ao homem, na maioria esmagadora dos casos, ter a iniciativa de abordar e conquistar uma mulher. Cabe a ele, via de regra, prover a maior parte do sustento da casa. E de uns tempos pra cá ele também tem assumido diversas tarefas domésticas que antes ficavam a cargo das mulheres, pois a elas cabia apenas cuidar dessas tarefas (é só ver o caso de nossas mães e avós).
      Toda essa pressão que, ainda nos dias de hoje, incide sobre os homens só pode resultar em problemas psicológicos. Mas ninguém fala nada sobre isso…


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