Orgulho, gratidão e preconceito

Um pouco depois da minha separação tive a oportunidade de ler O Sucesso Não Ocorre por Acaso, de Lair Ribeiro. Em um dos capítulos o autor fala sobre a quebra de paradigmas. Até então eu não entendia muito bem o que eram paradigmas e por que é necessário quebrá-los para progredir. O fato é que o fim do meu casamento representou a quebra de um dos principais paradigmas da sociedade (ou melhor, talvez fosse um paradigma apenas pra mim; há tempos ele vem sendo quebrado pela sociedade): o de que um casamento deve durar para sempre — ou seja, a partir do momento em que duas pessoas se unem, elas devem viver juntas e felizes para o resto da vida (o famoso “até que a morte os separe”). Sou sinceramente grato à minha ex por ter me mostrado que as coisas não precisam ser definitivas, e que é possível crescer muito após uma separação. Mas sou orgulhoso demais pra admitir isso pra ela…

• – • – •

Dia desses eu estava assistindo a uma palestra sobre discriminação. Alguns representantes da comunidade afrodescendente estavam falando sobre suas experiências de vida e como o preconceito e a rejeição que eles sofreram por serem “diferentes” interferiram em seu crescimento pessoal e profissional. O impacto de ser rejeitado é tão nocivo quanto o de sofrer preconceito; na verdade vejo que, no que diz respeito a relacionamentos, a rejeição é uma forma de preconceito a partir do momento em que não se procura ter uma visão mais ampla sobre o outro — é mais fácil simplesmente “descartá-lo”. A pessoa rejeitada acaba tendo um sério prejuízo em sua autoestima — “se eu não fui bom o bastante para ela(e) não serei para ninguém”. Uma forma de não sofrer esse prejuízo é encarar a rejeição de uma forma diferente: a pessoa que rejeita apenas tem medo do “diferente” sem avaliar se ele é melhor ou pior.

Sofri preconceito em diferentes épocas de minha vida. Quando eu era criança eu passava a maior parte do tempo com as “mulheres da minha vida” — minha mãe, minha avó e minhas irmãs. Foi inevitável adquirir uma certa sutileza na forma de agir que acabou sendo confundida pelos meus colegas da escola — o que me levou a ter apelidos terríveis. Para agravar ainda mais o quadro, eu uso óculos desde os sete anos de idade, e sempre tive boas notas nas provas; passei boa parte da infância e da adolescência sendo visto como nerd — o que não acho ruim, pois é de conhecimento geral que os ditos nerds acabam tendo sucesso de várias formas — financeiramente, intelectualmente e até no que diz respeito a relacionamentos!

Fiz exército e ali também fui um dos “diferentes”: enquanto os outros caras,vindos de famílias mais abastadas, desfilavam por lá com seus corpos esculpidos por horas e horas de musculação em seus carros do ano, eu, um garoto franzino (e de óculos!), ia predominantemente de ônibus pro quartel — eventualmente eu pegava o carro do meu pai, um Monza com mais de 10 anos. Claro que eu fui segregado também durante minha passagem pelo serviço militar, apesar de ter sido uma segregação um pouco mais velada.

Hoje em dia vejo que, apesar do “preconceito” sofrido por minha própria ex esposa, me sinto mais “incluído”: trabalho em um lugar onde há outras pessoas com uma forma de pensar semelhante à minha. Tenho buscado usar o sentimento de rejeição que sofri com o fim do meu casamento como algo que me ajude a crescer: não fui rejeitado por ser pior, e sim por não ter sido igual ao que ela esperava. Certamente encontrarei uma mulher tão “diferente” quanto eu (ou seja, uma mulher cujo conceito preestabelecido sobre o casamento seja bem parecido com o meu) com quem, provavelmente, terei a oportunidade de ser feliz até que a morte nos separe.

Explore posts in the same categories: Pensamentos

One Comment em “Orgulho, gratidão e preconceito”

  1. marina Says:

    Esse lance de rejeição e preconceito é foda, faz um estrago enorme na cabeça/vida da gente, desde pequena fui vista como uma garota problemática q vivia no mundo da lua, até o colegial os professores falacam para meus pais me levar para um psicologo, mais nunca fui, hj aprendi mais com a vida do que qualquer psicologo poderia me mostrar, acho que vc aprende mais vivendo do que ouvindo algo que no fundo vc ja sabe so não esta preparado ainda para praticar, o problema independente da origem e tipo de discriminação é o mesmo, as pessoas simplesmente não sabem respeitar a individualidade alheia e acho que é uma coisa que nos temos q aprender a lidar já que não vai mudar.


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: